Há uma imagem que atravessa os filmes desta mostra: alguém que passou o ano inteiro costurando, ensaiando, esperando — e que, por alguns minutos, cruza a avenida carregando uma comunidade inteira no corpo. O carnaval é festa, mas é também arquivo. Guarda nos sambas-enredo, nas fantasias e nos passos do mestre-sala as histórias que quase nunca couberam nos livros.
Em Joaçaba e Herval d'Oeste, separadas — e costuradas — pelo Rio do Peixe, essa história começa cedo. Em 1934 o jornal Cruzeiro do Sul já noticiava um desfile na Rua Getúlio Vargas, e as primeiras batucadas nasceram de raízes afro-brasileiras, em casas de santo de Herval d'Oeste. Dos casais do "Que Murmurem", que nos anos 1950 levavam o carnaval às ruas e aos clubes, às escolas que hoje põem milhares de pessoas na avenida — organizadas desde 1996 pela LIESJHO —, a festa virou uma das mais tradicionais do Sul do Brasil. Entre Máscaras e Sorrisos, de Airton Cevey Junior, abre a mostra entrando nesses bastidores: o barracão, a costura, as disputas, os afetos, quem faz a festa acontecer.
Mas essa história não é só nossa. Em Joinville, a "Cidade da Dança" de herança europeia, o samba ganhou endereço em 1967, quando amigos do Kênia Clube — clube da comunidade negra da cidade — criaram o bloco que viria a ser a Príncipes do Samba; é desse chão que falam os mestres de Notáveis do Samba, de Alceu Bett. Em Jaraguá do Sul, outra cidade que se conta alemã e italiana, Manuel da Rosa, o Mestre Manequinha, fundou a Estrela D'Alva em 1938 e manteve o carnaval vivo por décadas, trazendo a cultura afro-brasileira para o centro da festa — é ele o personagem de Manequinha, de Thiago Barba. E em Florianópolis, no Morro da Caixa, moradores do morro e marinheiros saudosos do Rio fundaram em 1955 a Embaixada Copa Lord, uma das escolas mais antigas e premiadas do estado, retratada em Lorde do Carnaval, de Gabriela Rovai.
Ver esses filmes juntos é fazer algumas perguntas. Quem guarda a memória do carnaval quando os holofotes se apagam? O que acontece com um saber — bater um surdo, conduzir uma bandeira, riscar um enredo — quando seus mestres partem? Por que, num Sul que tantas vezes se narra europeu, foram comunidades negras que fizeram do samba uma forma de existir e de ocupar a cidade? E o que Joaçaba reconhece de si mesma no carnaval de Joinville, de Jaraguá e da Ilha?
Por isso as sessões acontecem dentro das quadras das escolas de samba, em novembro — mês da Consciência Negra —, com quem faz o carnaval na plateia e no debate. Que o cinema, aqui, seja menos uma tela e mais uma roda: um lugar de ver, de lembrar e de conversar.